Eu te amo, mas ainda dói

23:35


- Você me ama? - Ele perguntou. 

Eram seis horas e alguma coisa, o céu tinha cor de finalzinho de tarde. Ela saiu do trabalho, e foi. Com o coração saltando pela boca, com o estômago confuso e a mente inquieta. Negou tanto esse momento, negou as circunstâncias, negou as possibilidades dele querer acertar seus erros novamente, ela já sabia do discurso. Mas foi. Não sabia bem o que estava fazendo. Só que sempre foi assim. Ela sempre se perde no desenho daquele sorriso e no som daquela risada. Perde qualquer forma, quando está perto dele, quando encara aqueles olhos. Ele a rouba completamente.

Estava frio. A mão e o coração. "Empurre", estava escrito na porta. Os olhos dela passaram despretensiosamente através do vidro tentando enxergá-lo. O coração apertou. Ela entrou. O cheiro do café a familiarizou, era o programa preferido deles para conversar, para dar notícias e para, perdoar. A temperatura estava agradável lá dentro. Cumprimentou gentilmente o atendente e caminhou até o fundo. Na última mesa. Lá estava ele. O silêncio se fez presente. Os olhos dele ficaram mais úmidos que o normal, a garganta trancou. A presença dela  o havia intimidado. 

- Demorou. - Ele disse.
- Saí depois do horário. - Ela respondeu, enquanto sentava e ajeitava suas coisas ao lado da mesa. 

Os olhos se encontraram. As lembranças eram fortes, e um leve sorriso se manifestou. Os olhos dele imploravam por perdão, transbordavam todo o arrependimento. A voz baixa e calma, toda aquela máscara, aquela armadura haviam se sumido. Era ele, apenas ele. Como no dia em que se conheceram. Ele parecia tão transparente agora, tão brando. Ela devolvia o olhar. A expressão daqueles olhos queimavam dentro dela. Estava tudo uma bagunça, as palavras não saíam, mesmo que tentasse, não passavam da garganta dela. Já havia assistido a essa cena. Já estava exausta de perdões, de desculpas.

Ela o ouvia, ouvia suas palavras, ouvia falar como tem estado desde que tudo se esvaiu. Ela tentava acreditar, mas estava tão machucada, que aquelas palavras não conseguiam atravessar a barreira que ela havia criado. Sentiu a sua falta, sentiu o vazio ecoar dentro dela quando lembrava da história deles. O evitou de todas as formas, excluiu, bloqueou e ignorou. Aquilo doía, mas doía ainda mais viver de mesmíce, do pouco caso dele.

Mas ela foi. Estava diante dele. Queria acreditar naquelas palavras, queria acreditar naquela pessoa nova, quase desconhecida, que estava na sua frente. Mas coração em caquinhos não consegue sentir como antes. As cicatrizes sempre estarão ali. Ela olhou para baixo, sem respostas. Sem saber o porque estava ali. Confusa e com o peso daquele sentimento tão remendado. As próximas palavras, que estavam por vir, ela mal sabia o que estava prestes a ouvir. E então, aquela interrogação ecoou no silêncio, os olhos dele estavam fixados nela agora. Ele não gaguejou, soltou uma palavra de cada vez, em tom baixo e manso para não assustá-la.

- Você me ama? - Ele perguntou. 

Essas palavras explodiram dentro dela, os olhos se fecharam, o corpo gelou, as pernas bambearam e a garganta deu nó. O encarou e desviou o olhar. Fez-se silêncio. O pessoal do café já estava arrumando as coisas para fechar. Estava noite, o tempo passou tão rápido que ela nem se deu conta. Então, gestionou os lábios em um sorriso. Seus olhos se sobressaíam em negligência. Ela só queria sair dali. Ela só queria ter dito qualquer coisa. Mas as palavras escaparam da boca antes mesmo dela tentar mentir para si mesma. Olhou nos olhos dele. 

- Eu te amo. - Disse o atingindo. 
- Mas ainda dói. - Ela finalizou.

Ele sabe disso agora. E ele daria qualquer coisa para voltar naquele momento. O momento em que se conheceram, antes de qualquer coisa ter dado errado. 

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6 comentários

  1. Ahh que dor no coração!!
    Acho que todo mundo já passou por algo assim né?!
    Amei o texto <3
    beijos

    www.garotasenxaqueca.com

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    1. E dói, né?!

      Que bom que gostou!

      Obrigada sua linda <3

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  2. Tu escreves muito bem! Amei descobrir esse blog <3

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    1. Fico feliz em ler comentários assim! Muito obrigada, Karoline. Vou adorar tua visita aqui <3

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  3. Cá estou eu com mais um comentário que você já deve até imaginar a essência.
    Eu já disse e volto a repetir que os seus textos me cativam profundamente e é impossível não me sentir dentro deles. Eu sinto tudo o que a personagem sente, seja bom ou ruim, felicidade ou angústia.
    Você tem esse dom. O dom de utilizar a escrita para tocar aqueles que as leem.

    Eu não só gostei. Eu amei! Eu estou encantada!
    Esse texto só afirma tudo o que acho de você e seu blog. Incrível!

    Sou uma leitora fiel e sou sua fã!
    Beijos!
    Escritora por um Acaso

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    1. Só tenho a agradecer por esse carinho. Não sabes como sou completamente grata pelas as tuas palavras. Motivam-me a escrever cada vez mais.

      Muito obrigada, de coração. Fico imensamente feliz em saber que te identificas e aprecias. Eu amo a tua visita aqui no blog.

      Não esqueças que, também acompanho o teu blog, e tenho o mesmo apreço.

      Obrigada, mil vezes!

      Beijão! ♥

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