Ele é desses tipos de caras errados

17:07


Eram quase onze horas da noite. Para ser mais específica; dez horas e quarenta e sete minutos.

A temperatura já havia caído uns cinco graus desde que me sentei aqui, e marcava no aplicativo do celular, congeladamente, três graus. Estava noite, nos balanços não haviam mais as crianças disputando pela maior velocidade de embalo. Neste momento, a grama refletia gotículas de água da serração que se pusera a limitar meus olhos, fazendo com que a luz amarela dos postes criassem fantasmas de sombras vertiginosas pelo chão, restara agora, os resíduos dos piqueniques que passara por aqui durante a tarde, e eu, esperando por ele.

Junto as mãos próximas a minha respiração na intenção de aquecê-las, mas já não as sinto mais. Enquanto faço esse gesto repentinamente, observo o lugar. A essa hora todos da vizinhança já devera estarem recolhidos em suas camas, ou partilhando um momento em família amontoados de cobertas na sala, com bebidas quentes e filmes norte americanos. Por um momento, hesito em continuar a esperar, já se passara duas horas do horário que me prometerá estar aqui, mas meu corpo está tão gélido, que mal consigo controlar meus movimentos. Uma inquietação começa a ferver dentro de mim, algo me diz que ele está perto.

Não consigo tirar meus olhos da estrada penumbrosa, a curva está fechada com a neblina que paira. As folhas das árvores se fazem estáticas, nem um visco de corpo ambulante, somente passara os carros de faróis cegantes. Sinto meus ombros tensionados, de repente, uma frustração incrédula me invade. Levanto incomodada do banco de madeira úmido, ajeito meu casaco para que cubra um pouco mais abaixo da minha cintura, atravesso o gramado da praça e sigo pela estrada em passos furiosos e amedrontados, ouço somente o barulho do salto das minhas botas atritando com o asfalto.

- Desistiu? – Uma voz densa e convicta ecoa atrás de mim. Meu coração palpita. Viro-me, é ele.

- Pensei que não viria, não poderia ao menos ter mandando uma mensagem? Eu estou congelando! – Disse, em tom crítico, mas contendo um sorriso por vê-lo, mesmo que, quase tarde demais.

Ele caminha em minha direção, pega minhas mãos e as leva para dentro de sua jaqueta de couro, fazendo com que eu o envolva, e me aqueça ao mesmo tempo. Ele sobe suas mãos de volta, acariciando meus braços até chegar ao meu pescoço, nesse instante, já me sinto rendida. Não era esse o plano. Mas era quase inevitável lutar contra aquelas retinas fixadas na minha boca. Ele infiltra meus cabelos entre seus dedos, e desenha meus lábios com os seus, eu fecho meus olhos e sinto, então, seu beijo.

- Não, não pode fazer isso! – Exclamo, mantendo uma distância de dez centímetros entre nossos rostos. Tento me desprender de seu corpo, mas ele me puxa de volta.

- Você sabe que por mim eu nunca a deixaria, você escolheu assim. Eu neguei o dia todo em vir aqui, mas eu não a deixei sozinha, só estava adiando de me aproximar, eu não saberia lidar com o depois.

Ele é desses tipos de caras errados, que faz você se apaixonar e ficar vulnerável. Tem sempre uma penca de mulheres fazendo de tudo para chamá-lo a atenção. Mas para mim, ele era diferente. Ele tinha esse jeito excêntrico, sedutor, arrogante, mas estava sempre um passo à minha frente, para não me deixar cair, ele sempre estava lá, mesmo que eu soubesse me virar. 

- Não posso mais fazer isso. Agir como se nada acontecesse, como se tudo estivesse bem. Eu não quero estar com um cara que lida com frieza para tudo, não precisa ser o tempo todo forte, eu estou com você, eu não quis te mudar desde o primeiro dia em que te conheci, não sou como as outras mulheres. - Falei, em tom calmo e, ao mesmo tempo, deixando as palavras escaparem de dentro de mim.

Suas sobrancelhas assumiram uma expressão de compreensão, seus lábios se contraíram e antes dele falar, os umedeceu puxando a parte inferior para dentro em uma mordida.

- Eu sei, linda. Não queria ser assim, mas com você é diferente. Sinto uma necessidade de estar perto, de protegê-la, é como se meu corpo ficasse em paz perto do teu. Tenho medo das coisas que me faz sentir, tenho me de como faz meu coração acelerar. Eu não quero que você vá embora, por você, eu quero mudar. 

Fiquei olhando para seu rosto enquanto ele falava as palavras, com sua voz mansa e grave. Ele é lindo, completamente, um perigo lindo de correr. Coloco minhas mãos, agora aquecidas, em seu rosto. Fito profundamente seus traços marcantes e deixo sair de minha boca o que eu prometi que não falaria, o que eu não deveria ter dito, mas disse.

- O plano era dizer adeus. O plano era fugir dessa confusão toda que me faz sentir. Mas eu só consigo pensar em acordar ao teu lado amanhã. Eu só consigo sentir, como já é amor.

Em um impacto, ele puxa meu corpo para perto, deita meu rosto um pouco para o lado e encosta seus lábios em meu ouvido.

- Para mim, tem sido amor desde o primeiro dia, linda. Eu vou fazer de tudo para te merecer. Fica comigo. - Cochichou.

Fomos parados por um silêncio gritante, até minhas próximas palavras.

- Sempre estive. - Entreguei-me.

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2 comentários

  1. Olá!
    Que texto/conto maravilhoso *-* "Vi" muito nele do que há na vida real! Você tem talento. Não pare de escrever, flor. Arrasou! O seu blog é uma gracinha *-* Adorei! Já estou seguindo e voltarei mais vezes! Espero que visite o meu e se puder seguir, agradeço!
    Beijos, Garota Vermelha
    www.livrosdagarotavermelha.com.br

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    1. Linda, muito obrigada!
      Volte sim <3

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